Já não me sinto em mim, levantar-me diria eu em certos tempos atrás que era o começo da minha manhã, mas agora não é mais, juro a mim mesma que acabei matando a minha alma ficando dias inteiros na cama a mudar de canal sempre que dá publicidade e contando às minhas irmãs todos os episódios das suas novelas que perdem trabalhando enquanto eu fico aqui sozinha. Não digo mais que vou trabalhar, não acordo com um sorriso na cara e digo amo-te à pessoa que dormiu durante anos lado a lado comigo. Esteve comigo nos meus momentos mais altos e nos momentos em que eu fracassei, esteve segurando a minha mão quando nossa filha nasceu, esteve comigo sempre. Mas no final sempre me dizia que por onde eu andasse, que por onde estivesse ele me ia amar sempre, por mais que a vida nos separasse ele me ia agarrar e me levaria com ele até ao fim do Mundo e sempre eu acreditei.
Não devia ter sido agora, não devia ter saído da minha vida de um momento para o outro, ele sempre disse que ia ficar bom, e que quando ele fosse me levaria com ele, ELE DISSE-ME!
Pela primeira vez mentiu-me, e abriu-me a ferida mais profunda que eu já tivera, mentiu-me sobre a sua vida, disse que ia viver para ver os nossos netos a correr no nosso jardim e mal chegou a ver a nossa filha crescer. Prometi não lhe largar a mão e não a larguei até que me avisaram que não dava mais, que teria de sair daquele sítio. Para esperar na sala de estar. Como poderia estar numa sala de estar? Havia alguma maneira de estar ali? Eu andava de trás para a frente e da frente para trás sem saber como estaria naquela hora o meu marido, que noutra altura estava sorrindo para mim e dizendo que me amava de uma maneira tão linda que parecia que íamos ficar juntos durante tantos anos. Sentei-me e acalmei-me enquanto bebia um chã de camomila bem quente, que me obrigaram a beber pelas quantas horas que fiquei ali em pé sem nada no estômago, mesmo quando eu dizia que nada me passara pela garganta, nem mesmo a minha saliva. Senti um frio vir sobre mim e uma sombra assombrou o espaço onde estava sentada. Olhei repentinamente e vi o médico com um olhar aterrorizador sobre mim, não pode ser pensei eu.
- Desculpe, desta vez não deu mais, - disse o médico baixando a cabeça – desc…
- Desculpe? Não deu mais? Não deu mais o quê?! – Interroguei eu não acreditando no que o médico me dizia.
- O seu marido, não deu mais, ele morreu.
- Por favor, não brinque comigo, ele não pode ter morrido. Ele ia ficar comigo para sempre, ele disse-me que ia, ele prometeu-me que não ia embora antes de eu ir! Ele não me pode ter mentido, logo agora. – Disse eu tentando manter a calma até que expulsei a minha dor com cinco palavras. – ELE NÃO PODE TER MORRIDO!
- Fizemos tudo ao nosso alcance minha senhora, não deu mais. – Disse aquilo e foi embora.
Como é que me podiam dizer aquilo? Será que fizeram? O meu marido morreu. MORREU, e ainda tem coragem de me dizer que fizeram tudo o que podiam. Eu não poderia viver sem ele, não agora com a nossa filha ainda pequena.
Senti um pedaço de mim ficar naquele lugar e ir com ele, dizer que o amava era pouco e dizer que o tinha de deixar um dia, para mim isso seria impossível, mesmo muito impossível. Como se ele fosse única pessoa que me limpava as lágrimas e me acalmava, era simplesmente a verdade naquela altura era apenas ele que me conseguia acalmar. Nunca mais iria sentir a sua pele, a sua barba roçar na minha cara enquanto nos beijávamos ou até sentir os seus dedos entrelaçados nos meus enquanto dizíamos as coisas mais lindas que achávamos.
Tinha o perdido de vez e já nada mais o trazia de volta, mesmo que eu chorasse ou até gritasse. Eu até podia puxar os meus cabelos mas isso só ia fazer com que outra dor nascesse em mim e eu nunca iria querer isso. Eu tinha uma filha, Mary e teria de fazer tudo por ela, Philippe podia ter morrido, mas eu estava aqui. Estava a ser egoísta, eu sei, mas já nada amenizava minha dor. Eu caí no chão e por mais que me tentassem levantar, a minha dor me deixava mais de rastos e fazia força comigo para ficar mesmo lá no fundo. Eu esbofeteei-me, eu esperneei-me e acreditei que estava a ter um pesadelo, cheguei ao ponto de me penicar sem sentir dor e sem querer parar, as lágrimas caiam-me e deixavam-me o rosto húmido e frio.
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